Educação pública de Maragogi combate evasão escolar e melhora o Ideb

Quando Sérgio Lira voltou a comandar, pela terceira vez, a prefeitura de Maragogi, em janeiro de 2017, depois de doze anos, a professora Andréa Carla Ferreira dos Santos assumia a direção da escola municipal Ayres Pereira da Costa, situado no povoado de Peroba, zona urbana do município (o mais carente de Maragogi). À época, a Rede Globo de Televisão realizava uma série de reportagens sobre a decadência da Educação no país, e Maragogi, por apresentar um dos piores Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de Alagoas, foi um dos escolhidos pela produção do Jornal Nacional.

E a professora em foco foi Andréa. Ela concedeu entrevista no seu novo ambiente de trabalho. E através do vídeo, o Brasil pôde ver a situação deplorável em que se encontravam as escolas da Rede Pública Municipal. A narração do repórter foi quase desnecessária, as imagens falavam por si só: cadeiras quebradas e em número insuficiente, paredes sujas, sanitários interditados, falta de merenda. Os prédios estavam sucateados. Alunos desmaiavam de fome. A evasão escolar era algo estarrecedor. “A realidade com a qual nos deparamos era calamitosa”, disse Andréa. “Até ‘gato’ (roubo de energia elétrica) foi achado.”

Segundo noticiou o site G1 AL, em setembro de 2016, levantamento divulgado, com relação ao 5º ano do Ensino Fundamental, Maragogi ficou com nota 3,2, abaixo da meta que era de 3,6. O resultado ainda foi maior do que o registrado em 2013, quando o município alcançou nota 2,9.

Nomeada por Sérgio Lira, Andréa deixou a escola municipal Antônio Verçosa Coelho, localizada no povoado de Barra Grande, onde já havia deixado sua marca profissional registrada, para enfrentar o novo desafio. Ela dirigiu a Antônio Verçosa durante dois anos, e a deixou com o melhor Ideb do município.

A primeira e imediata atitude na nova casa foi a intervenção pedagógica: trocou quase cem por cento do quadro de professores e do pessoal administrativo. Muitos alunos, em série já avançada, não sabiam sequer ler. Era preciso antes de tudo alfabetizar a escola. “Os professores, revoltados por não receberem seus salários em dia, largavam mais cedo. Nenhum queria cumprir o horário integral.” A escola tinha 300 e poucos alunos.

A escola como é hoje

Toda eletricidade foi trocada. Reativou o EJA (Educação de Jovens e Adultos) – modalidade de ensino destinada a jovens e adultos que não deram continuidade em seus estudos e para aqueles que não tiveram o acesso ao Ensino Fundamental e/ou Médio na idade apropriada –, esquecido há 8 anos. Dispõe de dez computadores, funcionando e com Internet. Merenda farta, de primeira qualidade. Tem o melhor 5º ano de Maragogi. Aulas em horário integral. Professor não veio? Não é por isso que os alunos vão ficar sem aula. A diretora ou a coordenadora pedagógica Valquíria Marinho de França assume a sala. “Essa gestão veio para coroar a alegria em poder proporcionar tudo de bom para a nossa comunidade”, vibra Valquíria.

“A qualidade de nosso ensino melhorou”, festeja a secretária executiva da Secretaria Municipal de Educação, Zethy Sapucaia. “Anuncio com base na Prova Alagoas, que é um ‘termômetro’ da aprendizagem da Educação. Maragogi estava na 101ª colocação (penúltimo do estado), passou para a 85ª. Isso entre os meses de março a agosto de 2017. Temos isso documentado. E a prova maior é a credibilidade. Alunos oriundos de escolas particulares estão migrando para escolas da rede pública municipal. Reduzimos a taxa de abandono. O aumento do índice de aprovação por aprendizagem está em 90%. O calendário escolar cumpre os 203 dias letivos. E em 2018, vamos implantar o sistema de correção de fluxo e distorção idade/série. São alunos que, pela idade, deveriam estar numa determinada série, e estão com atraso de dois ou mais anos. Vamos separá-los por salas e lhes dar uma atenção especial.”

A escola de Andréa comprova os índices difundidos pela secretária executiva. O número de alunos da Ayres Pereira duplicou. Agora, são mais de 600. Como conseguiu tal proeza em tão pouco tempo? Andréa foi pessoalmente às escolas de São José da Coroa Grande, Pernambuco (que faz fronteira com Maragogi e fica bem próxima de Peroba, já que é o povoado do extremo norte do município), pedir para não matricularem alunos de Peroba. Seu argumentando: a garantia de que o estudo de Maragogi iria melhorar. Convenceu. E cumpriu o que havia prometido. “Hoje me orgulho de ter aqui alunos de todas as classes sociais: filhos de comerciantes, policiais, e professores. É uma medalha ter alunos filhos de professores, significa que nossos colegas confiam na nossa capacidade profissional”, falou Andréa, que governa a escola com o auxílio de 34 profissionais, sendo 14 funcionários do quadro administrativo e 20 professores.

Além dos avanços intelectuais e numéricos contabilizados, a escola também oferece arte e cultura. Possui grupo de dança (que integra um ‘movimento social’ interno – espécie de turma de animação –, feito para participar de eventos da prefeitura) e mantém a banda de fanfarra, agora, com 35 componentes. A banda já existia, mas contava com apenas 15 instrumentos, e só 13 estavam em boas condições. O novo fardamento foi custeado pela prefeitura e por empresários locais.

“Andréa é um exemplo de pedagoga na esfera municipal”, elogia a educadora Zita Verçosa. “Conseguiu recuperar muitos alunos que tinham procurado ensino de melhor qualidade no estado vizinho. É bem organizada, desenvolve projetos. É ousada, inovadora, e realmente atuante. Envolve a comunidade em festas comemorativas. Ama a profissão, sente prazer no que faz. Procura se cercar de pessoas competentes. Exige muito desses profissionais. Enfim, apresenta um trabalho diferenciado. Gosto muito do resultado do seu trabalho.”

É por amor à profissão que Andréa dribla a escassez de recursos do Poder Público e acha atalhos para solucionar pequenos problemas de infraestrutura. Pais de alunos e ex-alunos se prontificam a prestar serviços como voluntários. O ar condicionado da Diretoria, por exemplo, foi uma doação da própria diretora; a escrivaninha e a estante foram cortesias dos professores; o forno elétrico, generosidade da coordenadora; alguns móveis foram doados pela comunidade.

A diretora que sempre seleciona um tema para trabalhar no ano letivo (o deste ano é “A influência da afetividade na construção do conhecimento” – aliás, pelo segundo ano consecutivo), não à toa, foi a professora escolhida pelo prefeito para ir a Palmas, em Tocantins, que apresenta o melhor Ideb do país, visitar escolas e conhecer a prática pedagógica de lá.

Andréa é professora do Ensino Fundamental II, em Língua Portuguesa, concursada. “Venho desenvolvendo um trabalho voltado ao resgate da afetividade, que sei que é o maior problema em nosso município, pois observei e ainda observo a falta de amor de alguns pais pelos seus filhos, e a escola hoje é também uma ferramenta de amor para com seus alunos”, disse ela.

Projetos

O Funk na Escola foi desenvolvido pelos alunos do 5º ano e abrangeu mais de 60 alunos. Os jovens criavam paródias em cima do estilo musical. Utilizando a batida funk, os alunos injetavam as letras, valendo-se dos mesmos temas: drogas, comunidade, bullying, violência. A originalidade estava justamente aí, nas letras: a inspiração veio de seus universos particulares.

Passa e repassa: a famosa gincana televisa serviu de trampolim para os alunos do 1º ao 9º ano conhecerem os escritores da Língua Portuguesa e aprenderem mais sobre Matemática.

Hino de Maragogi – Incentivo para aprender o Hino nativo. Cantar o hino diariamente tornou-se uma obrigação, depois da reza.

Projeto futuro – formar um coral.

Medalha de Prata

Olímpiada Internacional de Matemática, promovida pela Rede POC – Rede do Programa de Olimpíadas de Conhecimento. Trata-se de uma rede de programas educacionais, instituições acadêmicas e governamentais, professores, estudantes, gestores educacionais, empresas e interessados em geral na melhoria da qualidade da Educação através do estímulo do jovem para descobrir seu potencial, seus talentos e habilidades para seu desenvolvimento completo. Articula parcerias com inúmeras instituições no Brasil e no mundo visando oferecer o acesso ao estudante brasileiro a programas educacionais de excelência.

Nessa Olimpíada, a escola se destacou, ficando com a Medalha de Prata, outorgada aos professores de Matemática e a um grupo de cinco alunos do 9º ano. A Olimpíada foi para escolas de médio porte, a partir de 500 alunos.

Prêmio

Em 2016, Andréa ganhou um prêmio da Secretaria de Educação de Alagoas, no valor de R$ 40.000,00, por apresentar o melhor Ideb do município, quando dirigia a escola municipal Antônio Verçosa Coelho. Naquele ano, o governador Renan Filho premiou as escolas municipais de todo o Estado que tiveram a maior nota no Ideb de 2015.

Educação Infantil

“A Educação Infantil é a menina dos meus olhos”, emociona-se Andréa. “O investimento é pesado, e o retorno é compensatório. Aqui, crianças do Jardim já leem pequenas palavras, já vão para o 1º ano lendo. Nosso Jardim 1 tem 30 alunos, o Jardim 2 tem duas salas com 25 alunos.”

A escola adotou e os professores têm utilizado a Técnica de Pomodoro com os alunos do Jardim ao 5º ano. Essa Técnica é um método de gerenciamento de tempo desenvolvido por Francesco Cirillo no final dos anos 1980. A técnica consiste na utilização de um cronômetro para dividir o trabalho em períodos de 25 minutos, separados por breves intervalos. A técnica deriva seu nome da palavra italiana pomodoro (tomate), como referência ao popular cronômetro gastronômico na forma dessa fruta. O método é baseado na ideia de que pausas frequentes podem aumentar a agilidade mental.

“Trabalhar com dedicação é possível mudar a realidade”

É esse o pensamento que Andréa Carla Ferreira dos Santos, essa profissional gabaritada, que já dedicou mais de 20 anos de sua vida ao Magistério, leva ao pé da letra.

Post Author: Jose Valdemar